segunda-feira, 5 de novembro de 2012

do saber que vem com o tempo

A maior catástrofe de todas
Duda Salgado D'Almeida


Tenho inclinação para a tragédia. Adorava terremotos, vulcões, ondas gigantes, furacões, Maria Callas, Grécia Antiga. Gritos da natureza que esmagam milhares. Talvez fosse egoísmo de criança brasileira; no Rio de Janeiro mal ventava, ondas grandes eram puro divertimento, Jorge Ben cantava sobre a nega Tereza. Sempre achei que minha cidade estava a salvo de tragédias, porque era tudo tão bonito. Em sincronia com uma infância adoradora de tragédias, os filmes produzidos nos anos 90 também flertavam com as catástrofes. Diferente dos 2000, que adoram o fim do mundo. Há duas décadas, no máximo um ataque alienígena colocaria em risco o futuro do planeta. Quem não lembra de Twister e sua célebre vaca voando, ou do Inferno de Dante? Ah, vulcões. Um dia dos dias mais felizes da minha infância foi quando, num passeio de escola à Cedae, o professor mostrou, de longe, um vulcão inativo. Isso alimentou o sonho de que, um dia, ele entraria em erupção, e eu assistiria tudo bem de perto.
Hoje não acho graça nesses filmes – ou notícias. Passei a questionar meu lugar a salvo no prédio mais alto do voyeurismo. Me preocupam os rompantes da natureza. Penso nas pessoas. A morte por catástrofes não é tão justa. Casebres mais rústicos são os primeiros a serem levados, e a correnteza sempre arrasta os mais fracos.
Aos 21 anos, comecei a colecionar meus próprios desastres de ordem pessoal. Eu ainda estaria a salvo, mas não sem remar. Por mais que um cabo de aço me amparasse, estava no meio da correnteza, avistando ondas gigantescas estourarem nas palmeiras verdejantes da minha infância.
A tempestade Sandy, muito distante da nossa costa, acaba chegando até aqui de qualquer forma. Com o mundo totalmente interligado, pode-se viver as tragédias em tempo real. Todo mundo conhece alguém que está lá. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que escapou por um triz. Até o recém-finado Tufão foi de férias para NY encontrar-se com La Niña (desculpe a piada, e aproveito para me desculpar pela ingenuidade da Nana Gouvêa). Tudo televisionado pela CNN, ao vivo, milhões de câmeras e um diretor com olhos de fogo gritando “Corta pra 1, corta pra 2, agora corta pra 10! Zoom, zoom na perna da repórter!”. Os anos 2000 me permitiriam realizar aquele sonho infantil dos anos 90 – assistir a um desastre bem de perto. Através de câmeras de vídeo poderosíssimas em live broadcasting, vi os metrôs de New Jersey inundando, rios transbordando, ruas desertas com suas placas e sinais girando num carrossel louco. Os primos pobres Havaí e Cuba sequer fizeram pequena aparição – o grande monólogo era do Império Americano, que como João Bobo levanta e cai.
O encontro da sensação do sonho infantil com a realização do mesmo fez a espinha gelar. É difícil o reconhecimento de sonhos quando estes se tornam reais. Talvez esse seja meu maior medo – não de tempestades, catástrofes, muito menos do fim do mundo, mas o medo de não saber reconhecer meus sonhos quando estes se realizam.
Outro dia, quando estava atrás de um volante (com seis anos de atraso) ao lado de um professor que me dizia quando passar a marcha, andando a 40km/h no Arpoador de céu azul, me desliguei por um minuto e pensei o quanto, durante minha vida inteira, tinha sonhado com aquele momento. Era um desejo pré-escrita, um desejo que esquentava as bochechas quando meu pai entrava na nossa Brasinca e eu implorava pra dirigir. Ele me sentava em seu colo e colocava minhas mãos em cima das dele no volante que parecia um bambolê. Era pequena o suficiente pra caber entre sua barriga e o bambolê, e ele magro o suficiente para que eu entrasse naquele vão. Se tivesseyoutube, certamente eu viraria um daqueles memes onde crianças vão à loucura por causa de uma coisa aparentemente boba. Talvez eu virasse até comercial de carro, mas os vinte anos atrás me fizeram somente memória de sonho. Desses momentos, plantou-se a sementinha de que dirigir era a maior vitória que se poderia obter. O maior sonho. Ainda assim, aos 18, desprezei essa permissão, para retomá-la 6 longos anos depois, naquele momento. No Arpoador. Que é pertinho de casa. Da minha casa, que moro com meu marido. Outro sonho. Bum. Eu, 24, atrás do volante, no Arpoador vizinho, rumo à minha casa, com meu marido, e meu cachorro, e minhas paredes amarelo crisântemo. Bum, bum, bum. Percebi que realizei um monte de sonhos, e percebi tudo ao mesmo tempo.
Realizar sonhos não é perfeito. No carro fazia um calor infernal, meu marido anda com aquele olhar vago assustador, a casa ainda cheira à tinta. Mas é isso. Meus sonhos se tornaram reais.
Quase bati o carro. Que bom que o instrutor tem um freio só pra ele, pra evitar que a gente bata, sonhando ao volante. Primeira lição pós-sonho: motorista não pode sonhar.
De certa forma, percebo algo absurdo. Hoje, nos 2000, assistimos tragédias em tempo real. Assistimos pessoas morrendo, ondas batendo, terra rachando e queimando. Mas não há mecanismo, e nunca haverá, que nos possibilite assistir a realização dos nossos sonhos em tempo real. Não há mecanismo que permita a percepção de que, naquele momento, você está realizando um sonho. E, de alguma forma, é a concretização do sonho que nos faz continuar vivendo. É aí que reside a nossa felicidade. Talvez essa seja a maior catástrofe de todas.
e não é bem isso mesmo? de repente me deparo comigo, sentada numa mesa de uma bar no centro da cidade, um copo de cerveja na mão, entre vinte e muitas pessoas - todas da minha turma, todas amigas, todas queridas - celebrando a vida, ignorando algumas responsabilidades e cantando Belchior como quem brinda a vida. tudo (ou quase) o que eu sempre desejei pra minha juventude, de repente, na minha frente. e talvez então, eu seja tudo o que sempre quis ser.

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