Confesso Que Vivi - Pablo Neruda
segunda-feira, 28 de março de 2011
Quando é dificil pensar, não faltam palavras alheias.
A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão. Também é um sofrimento inseparável, como se agente tivesse duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e se contraísse diante da vida. Entre as estruturações do homem, esta qualidade ou este defeito são parte da amálgama que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser.
sábado, 26 de março de 2011
Mais perguntas
É verdade que a tristeza é larga
E estreita a melancolia?
Por que fazem sempre em Londres
Os congressos de guarda-chuvas?
Foi onde enfim me perderam
Que consegui me encontrar?
Não será nossa vida um túnel
Entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
Entre dois triângulos escuros?
Sofre mais quem espera sempre
Ou quem nunca esperou ninguém?
Que mais pesam na cintura
As dores ou as recordações?
E estreita a melancolia?
Por que fazem sempre em Londres
Os congressos de guarda-chuvas?
Foi onde enfim me perderam
Que consegui me encontrar?
Não será nossa vida um túnel
Entre duas vagas claridades?
Ou não será uma claridade
Entre dois triângulos escuros?
Sofre mais quem espera sempre
Ou quem nunca esperou ninguém?
Que mais pesam na cintura
As dores ou as recordações?
Livro das Perguntas - Pablo Neruda (tradução - Ferreira Gullar)
quinta-feira, 24 de março de 2011
Perguntas
Por que as árvores escondem
O esplendor de suas raízes?
Por que se suicidam as folhas
Quando se sentem amarelas?
As lágrimas que não choramos
Esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
Que correm para a tristeza?
É este o mesmo sol de ontem
Ou é outro o fogo de seu fogo?
De que ri a melancia
Quando a estão assassinando?
Não é melhor nunca que tarde?
Onde encontrar uma sineta
Que soe dentro de teus sonhos?
O esplendor de suas raízes?
Por que se suicidam as folhas
Quando se sentem amarelas?
As lágrimas que não choramos
Esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
Que correm para a tristeza?
É este o mesmo sol de ontem
Ou é outro o fogo de seu fogo?
De que ri a melancia
Quando a estão assassinando?
Não é melhor nunca que tarde?
Onde encontrar uma sineta
Que soe dentro de teus sonhos?
O Livro das Perguntas - Pablo Neruda (tradução de Ferreira Gullar)
sexta-feira, 18 de março de 2011
São as águas de março fechando o verão
O dia anterior fora difícil para ela. Tivera dúvidas novamente, sobre um assunto que parecia já encerrado em sua cabeça. Tivera uma certeza, de querer abandonar tudo e se mandar para o outro lado do continente, mas depois de uma noite de bom sono resolveu sustentar o sonho antigo. Ela tinha que voltar para uma aula depois do almoço. Pensou em chamar a amiga para ir junto, mas preferiu ir sozinha um pouco pela melancolia do momento.
Na hora de pagar, o músico no restaurante cantava a música com o nome dela. Ela que sempre odiara aquela música sorriu sem perceber. Foi depois à biblioteca e saiu de lá com dois livros de poetas na mão. O tempo havia fechado enquanto ela estava lá dentro, e não demorou cinco ou mais passos para sentir as primeiras gotas de chuva daquela tarde de sexta feira. Enrolou os livros na blusa para que não molhassem e seguiu em frente debaixo da chuva - afinal, ela podia se molhar inteira.
A poesia não.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Cursinho Preparatório
Ela havia vivido toda a sua vida enclausurada em uma espera. Esperava a hora de tomar as rédeas da vida, a hora de viver. Vivia no cursinho preparatório da vida, e quando começou a não caber mais na carteira, sentiu que precisava de alguma forma passar daquela etapa. Queria fazer tudo de uma só vez, romper com aquele cotidiano abafado e inerte. Mas foi aprendendo que não podia ser daquele jeito. As coisas tinham que tomar forma, pra só depois ela poder - finalmente - romper em direção à vida.
Ela tinha sede de viver, mas tapeava a vontade se enchendo de ilusões.
domingo, 13 de março de 2011
Pretérito Mais Que Perfeito
Ela havia se perdido naquele mundo de expectativas e frustrações. Sempre esperara muito, desejara muito, nunca correspondida. Uma última decepção havia levado-a a se fechar. Fechara-se para a vida, para o amor principalmente. Decidira que só poderia viver dali a alguns anos, quando fosse dona da própria vida, senhora do seu destino. Passou tempo bastante naquela condição de esporo, aquele que se encontra em meio hostil para sobrevivência. O tempo foi passando. Ela que antes era uma garotinha tornou-se quase mulher. Amadureceu, passou a desejar a vida, e só. Mas sabia que aquele ambiente ainda era hostil, e não tinha muitos planos para o futuro.
Foi quando conheceu um outro mundo, em meio a uma cordilheira maravilhosa. Era um mundo diferente de tudo aquilo que já havia conhecido - que não era muito - mas a encatava como nunca. Descobrira afinal seu desejo para o futuro. Traçou caminhos, desenhou planos e comprou a bonequinha para carregar sempre consigo, lembrando-a de seu objetivo máximo. A bonequinha agora, era a senhora do seu destino.
sábado, 12 de março de 2011
Deixei meu coração em um canto qualquer de Santiago
Cheguei ontem ao Brasil, depois de uma tentativa inconsciente de adiar a minha volta. Fiquei no Chile por mais 5 horas, em troca de meros trocados em dólares, e em detrimento de um retorno antecipado e menos cansativo. Mas queria ficar. Meu coração pulou quando a atendente da companhia aérea falou em ficar mais um tempo por ali devido a um overbook. Aceitei sem pensar muito nas consequencias, sem levar em conta que levaria mais 17 horas para eu chegar em casa, ao invés das 9 horas iniciais.
Fiquei, querendo ficar muito mais.
Me sentia já parte de um povo. Me identifiquei finalmente com aquela gente, sem me sentir um pedacinho deslocado e esquisito. Lá as pessoas são educadas, conscientes, têm olhares intensos e sorriso sincero. Claro que há exceções, mas a regra é essa: os chilenos são simpáticos e educados. Os chilenos são bonitos, charmosos e flertam como ninguém. Dois ou tres me conquistaram com um olhar que demorou, um sorriso cheio de charme. Eles me conquistaram todos, por inteira.
Deixei meu coração lá, voltei vazia e cheia de vontades.
Mas um dia eu volto para encontrá-lo, talvez perdido nos Andes ou nas ruas limpas de Santiago. Talvez em um canto qualquer perto do Pacífico, ou no deserto do Atacama. Mas eu volto, para resgatar meu coração e, quem sabe até mesmo, criar raízes por lá.
terça-feira, 1 de março de 2011
Hasta La Vista, baby
To indo pro Chile amanhã, e só volto sexta que vem.
Vou me dar um tempo, e dar um tempo pro mundo de mim também. Estava ansiosa por deixar tudo pra trás, perder aulas e mais aulas, acumular matéria, deveres, obrigações. Mas quer saber?
Foda-se.
Nunca tive um carnaval decente, acho que chegou a hora. E em estilo, pra um lugar que é a minha cara.
Hasta luego.
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