terça-feira, 9 de junho de 2015

perder o controle. é a pior coisa que existe.
sentir o abominável, saber que sente errado e, mesmo assim, sentir até as entranhas. é horrível perder o controle de si mesmo. meu sonho era encontrar um motivo fisiológico pra isso, e extirpar de vez essa falta.
é tão difícil. quase impossível.

quarta-feira, 18 de março de 2015

still

alzheimer é a pior doença do mundo.
não existe câncer, não existe paralisia, não existe doença cardíaca ou respiratória que se iguale. talvez a distrofia muscular seja capaz de se igualar, mas o mal de alzheimer atinge muito mais pessoas do que a ELA, então ela fica com o título: pior doença do mundo.
meu avô tem alzheimer há mais de 10 anos. ele já passou por todos os estágios, desde os esquecimentos corriqueiros, a perda de pudor, as situações higiênicas que testam a capacidade de lidar com constrangimentos de qualquer pessoa próxima, até a agressividade. hoje, meu avô é um semi-vegetal. digo semi, porque ainda é possível, vez ou outra, escutar ele gemer alguma coisa que faça sentido, mesmo que um sentido absolutamente superficial. como foi o dia que ele ouviu a voz do meu pai e chamou pelo nome dele, mesmo sem ter nada mais a dizer. é o tipo de coisa que coloca lágrima nos olhos de um filho, por mais simples que enunciar um nome seja. é o tipo de coisa que faz pensar que, ali, naquele fiapo de gente que restou, ainda existe alguma coisa daquele homem alegre e batalhador que foi um dia.
tem vezes que eu não consigo lembrar de como meu avô era. é como se fosse uma pessoa que morreu há muito tempo, e que eu nem lembro mais. mas, com um pouquinho de esforço, eu consigo lembrar de quando ele buscava a gente na escola, no golzinho vermelho que deixava ele ainda menor do que era na ápoca. passava sempre na padaria da praça Nova York, comprava fanta uva e chips pra mim e pro meu irmão. dá pra lembrar da alegria dele em montar o presépio no natal, com o laguinho de mentira, a areia branca, a montanha que ele fez de papel maché, as graminhas e todos os personagens presentes. até patinho na lagoa tinha, e só hoje eu consigo perceber o quão absurdo são patinhos na lagoa de Belém. mas aquilo era a maior felicidade dele. buscava a gente em casa pra montar presépio e árvore de natal, e sempre tinha a divisão: meninas na árvore com minha avó, e meninos no presépio com meu avô. no natal ele era só alegria, entregava os presentes com gorrinho de papai noel, adorava comer nozes depois de quebrá-las no quebra-nozes. meu avô bebia uma cervejinha de vez em quando, adorava ouvir chorinho e era uma pessoa feliz, muito feliz. amava minha avó de um jeito que eu não tenho exemplos na família, tudo dele era a Maria. aquela música que hoje, pra mim, é dos novos baianos, era antes do meu avô, que ele cantava e que significa muito hoje: "sei que vou morrer, não sei o dia... levarei saudades da Maria".
aí veio o alzheimer. no início era divertido, meu avô falava besteira, tirou as amarras do pudor que (creio eu) o casamento lhe trouxe. um dia, quando meu irmão completou 18 anos, foi capaz de falar com ele que quando ele tinha aquela idade, as mulheres faziam fila na porta dele pra transar. não tinha papas na língua, falava coisas desconexas, inventava histórias, mas era tudo, até então, muito divertido.
veio depois o início da parte mais degradante: os "acidentes". vira e mexe meu pai tinha que correr pra algum lugar pra tirar ele do banheiro, porque tinha feito alguma coisa na calça. meu pai, com toda a pedagogia dele, virou pai do pai, e inventou uma "cueca especial de viagem" que ele supostamente usaria, para o pai usar e não ter mais esse tipo de problema. meu avô pedia pra minha avó, pra ela chamar o Mauricio porque ele precisava de uma daquelas cuecas especiais pra ir na casa das irmãs ou dos filhos.
até então, meu pai conseguia levar tudo numa boa, não haviam grandes problemas que ele não pudesse resolver. mas o alzheimer, é a pior doença do mundo. e aí veio a agressividade. eu atribuo essa fase à percepção que a pessoa começa a ter do que vai ocorrendo com ela. ele tinha crises de agressividade recorrentemente, já chegou a bater na minha avó e no meu pai, e sempre depois dessas crises, haviam momentos de choro e de questionamentos sobre o que estava acontecendo com ele. pareciam picos de lucidez, que faziam ele sofrer ainda mais.
daí pra frente, vieram as enfermeiras, as fraldas, as sondas, a fisioterapia. meu avô parou de comer, parou de andar, parou de falar.
em uma das situações higiênicas constrangedoras que ele passou na casa das irmãs, meu pai foi chamado para socorrer a situação. foi o único que ele deixou entrar no banheiro, foi o único que conseguiu levar ele pra casa. quando meu pai acabou de limpar as coisas, viu o pai chorar pela primeira vez na vida. chorar igual criança, pedindo pra alguem acudi-lo, perguntando o que estava acontecendo.
o alzheimer é isso: é a perda de dignidade progressiva de uma pessoa. é a perda de si mesmo no seu próprio corpo, da sua história, do seu corpo, da sua vida no sentido memorial e no sentido fisiológico. por isso é a pior doença do mundo: você assiste à sua própria morte. você assiste à sua própria degeneração, física e mental.
hoje eu assisti o filme Still Alice, e me fez pensar muito em tudo o que essa doença causou a uma pessoa tão especial na minha vida. me fez pensar em tudo o que ela tá começando a causar em outra pessoa, também tão especial. e me fez pensar ainda, em tudo o que ela pode vir a causar, numa das pessoas mais especiais. quando a filha pergunta à mãe como é para ela a doença, e ela responde àquilo que ninguém ousa perguntar, a filha diz o que todo mundo quer dizer, mesmo sem perguntar: parece horrível.
por isso, por tudo isso, alzheimer é a pior doença do mundo.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

É tudo um caos de coisas nenhumas

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos. O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

plenitude

é a palavra que melhor descreve o que eu costumava sentir com frequência antes, e que voltei a sentir no primeiro dia do ano. plenitude, nesse dia. presságio de um ano bom, eu imaginei. mal sabia que dali a quatro dias não teria mais a chance de sentir aquilo. sentimento é nosso, só nosso. de mais ninguém. pena que envolve outro, pena que não existe aquela plenitude nem na mais saudável e bem resolvida solidão. nem na mais feliz solidão existe essa plenitude que eu sentia. e que eu quero voltar a sentir.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

pra gente se inventar de novo

cada dia menos...
cada dia mais...
mais dia, menos dia, tudo se acomoda.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Coração da gente – o escuro, escuros.

domingo, 25 de janeiro de 2015

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ser-se


e domar um coração aflito tem me ensinado muito.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

compositor de destinos

a única certeza que eu tenho agora é a de que o tempo vai passar. 
mais dia, menos dia, já vai ser logo mais. e aí o que pode acontecer? 

pode ser que ele ligue, que eles se encontrem, que a gente se abrace e resolva que dali pra frente o cuidado vai estar em primeiro lugar. não que tenha faltado cuidado propositalmente, mas faltou. e aí vamos nos prometer que o amor é maior, que as feridas vão ser cicatrizadas, que a gente vai se curar, e vai ficar junto, cuidar um do outro, fazer o que puder pra ser melhor, e que não vamos cometer os mesmos erros e pode ser que tudo acabe bem e que um ano dali em diante estejamos ainda juntos, felizes, cúmplices de um amor paciente e em paz. 

mas pode ser também que a foto saia da mesa, que as cartas diárias deixem de ser escritas. que as checagens de visualizações acabem, que as mensagens restem escassas. que outros assuntos tomem conta da cabeça, que outras pessoas se tornem constantes na vida. que as músicas felizes sejam mais tocadas, que as lágrimas não sejam monotemáticas. que a vida vá voltando aos poucos pra como era, mas sem deixar pra trás a bagagem que vem junto. que as aulas voltem, que se ver no corredor deixe de ser uma dor, e que as coisas vão ficando no passado.

o tempo passar é a única certeza. a vontade é uma só, mas ela não é certeza. certeza é o tempo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

sushi


e é a dor e a dor e é a dor e a dor, e é a dor e a dor e é a dor.

e eu me pergunto se o que existe de amor não é suficiente. se duas pessoas que se arrependem tanto não são capazes de fazer certo daqui pra frente. não tem como pegar o que existe de tão grandioso que é o amor, e isso ser o bastante? o amor não apaga as feridas, mas se a gente se arrepende tanto, e tem tanta certeza de que queria ter feito diferente, não é o bastante pra acreditarmos na gente?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

clichê

hoje a dor foi tamanha que nem o clichê foi clichê.
dizer que esqueceu o coração na casa dele não foi nada além da verdade.
a vontade era de que todos os sinais estivessem fechados, que por uma força sobrenatural tivessem que pegar estrada, e que por ali ficassem, até que o tempo passasse o bastante pra não haver mais dúvidas. porque quando o carro parasse, o fim se anunciaria, triste e cruel. esse fim que, como o outro, não é um "até breve", mais para um "até quando?".
até quando vai doer a falta no peito, fazendo o coração bater diferente?
até quando vai perder o apetite e o sono?
até quando vai ser o assunto monocromático da cabeça?
até quando vai ser o motivo para abrir as mensagens?
até quando a foto vai ficar na mesa?
até quando vai ter esperança, e até quando vai ser incerteza?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

arritmia

há alguns dias meu coração não tá batendo normal. e não é força de expressão nem nada do tipo, é a mais pura verdade: bate num descompasso, basta eu acordar e lembrar que a vida não é exatamente aquela do sonho, que aperta e começa a bater como se faltasse uma coisa, que faz o ritmo mudar.
meu avô um dia disse que a gente só pode e deve estar com alguém, quando isso nos faz ser mais feliz que se estivesse sozinho. essa conclusão tão lógica me parece muito distante. e eu sei que é cedo pra pensar em ser infeliz pra sempre, mas sei também que muita coisa tá fazendo muita falta, e que essa falta tá doendo muito, principalmente por saber que, a infelicidade não estava tanto no outro, muito antes em mim. e que os motivos da infelicidade não eram outros que não aqueles em que reconheci erros há um mês atrás, mas que simplesmente não fui capaz de colocar em prática as mudanças. e eu me pergunto, se não foi muito cedo que tomamos uma decisão tão drástica. se não demos tempo suficiente pras mudanças aconteceram. se daqui a um, dois meses, as coisas não vão estar do jeito como deveriam ser, e como queríamos que fossem. 
e aí eu me lembro: tem outra pessoa na relação. tem uma outra pessoa que tá sofrendo tanto quanto eu, sem tanta responsabilidade, talvez muito mais vítima que eu. e esse outro alguém, logo vai estar de pé de novo, e vai conseguir ser mais feliz sozinho (ou em outra companhia) do que eu podia lhe fazer feliz.
e eu sei que nada é impossível, que eu também posso conseguir ser feliz de novo. mas será? eu passei tanto tempo da minha vida sendo infeliz sozinha, apenas sabendo lidar com a minha solidão de uma forma bem resolvida, e eu me pergunto: será? ele eu sei que consegue. e eu?
e eu sei que não é justo pedir mais uma vez, pedir mais uma chance. mas me pego vez ou outra pensando nisso, pensando em grandes loucuras, em pedir mais uma chance. se não agora, daqui a pouco. mas aí, de novo, eu lembro: a vida dele não vai parar. e ele é uma pessoa tão especial que logo logo alguém novo entra, e fica. porque não ficar é a maior loucura que uma pessoa pode fazer.
eu fui incapaz.
e meu peito tá doendo. insuportavelmente.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

despida

pior que perder o amor é quando o amor era o melhor amigo.
eu sei que eu não era a melhor amiga. eu sei que haviam outros melhores amigos. mas pra mim, sempre foi o melhor amigo, o amigo pra quem eu contava as coisas todas, sem vergonha de parecer ridícula por gostar de uma série boba. era pra quem eu falava das minhas maiores inseguranças, era na frente de quem eu despia minha alma, tocava em feridas, tirava sangue.
só que o sangue que eu tirava secava rapidinho, porque tinha quem me segurasse.
agora não.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

das palavras que não foram ditas

você foi a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo. vai ver até em uma vida toda.
você é a pessoa que eu mais amei. 
você me mudou de formas que eu não imaginava que eram possíveis.
eu nunca fui tão sincera e honesta quanto fui com você. 
eu nunca tive tanta vontade de ser melhor quanto eu tive com você. eu ainda sinto vontade de ser melhor, eu ainda me pego em pensamentos traiçoeiros de tentar de novo. eu queria ter sido a melhor pessoa do mundo pra você, porque era isso que você merecia. 
eu não me perdoo pelas coisas erradas que fiz com você.
você é um homem lindo, e nunca tive tanta certeza em chamar alguém como eu te chamava. acredite.
você é de longe o cara mais legal da faculdade, mais legal que eu já conheci.
eu ainda gostaria de te fazer feliz. não hoje, não daqui a pouco. um dia, quem sabe.
eu não tenho a pretensão de te amar pra sempre, como te disse uma vez, é muita pretensão dizer pra sempre quando se tem vinte e pouco anos. mas eu te amei como nunca, e isso não muda. isso é pra sempre.
não sei se você vai ler, não sei se você um dia vai ouvir isso de mim. mas eu queria ter dito tudo isso antes de você ir embora. eu te amei MUITO. eu te amo muito. isso é pra sempre.