terça-feira, 29 de novembro de 2011
sábado, 26 de novembro de 2011
Come as you are
E é por isso que agora eu sei falar:
- que eu não quero cortar meu cabelo;
- que eu não vou estudar na faculdade de meninas de blush e salto;
- que eu acho ridiculo uma faculdade que age como se fosse um colégio;
- que eu quero pintar as unhas do pé de vermelho;
- que eu bebo cerveja sim;
- que eu adoro o Maletta;
- que eu não tenho como objetivo principal de vida ficar rica;
- que eu não tenho a menor certeza sobre os passos que estou dando.
- que eu não quero cortar meu cabelo;
- que eu não vou estudar na faculdade de meninas de blush e salto;
- que eu acho ridiculo uma faculdade que age como se fosse um colégio;
- que eu quero pintar as unhas do pé de vermelho;
- que eu bebo cerveja sim;
- que eu adoro o Maletta;
- que eu não tenho como objetivo principal de vida ficar rica;
- que eu não tenho a menor certeza sobre os passos que estou dando.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Honestly.
Ando tentando ser o mais sincera possível comigo mesma. Com meus sentimentos, com minhas idéias, com meus medos. Meus instintos.
Ando tentando me desvencilhar de todas as expectativas externas. Pra que ficar sustentando sonhos e impressões? Pelo contrário. Quanto mais sincera sou comigo mesma, mais transparece para o mundo quem eu sou e, quer saber? É bem melhor impressionar uns poucos com a verdade do que impressionar tantos outros com as mentiras que a gente constroe sobre nós mesmos. Então aqui vai, 10 coisas que ninguém imaginava sobre mim:
1- Eu bebo. E gosto.
2- Eu morro de vontade de fumar.
3- Eu tenho estrias e celulite.
4- Minha tatuagem significa muito mais pra mim do que pra você. E eu gosto que seja assim.
5- Eu me apaixonei por um croata no Chile, e um dia ainda vou atrás dele.
6- Eu sou preguiçosa, e fraca diante da minha preguiça.
7- Eu mato aula pra ficar dormindo e ouvindo música no sol.
8- Eu não acho errado fumar maconha. Não fumo, mas um dia, quem sabe.
9- Eu não quero ser advogada.
10- Eu não tenho a menor idéia do que eu quero pra minha vida, juro!
Então, isso é uma parte. O resto vai aparecendo aos poucos.
Ando tentando me desvencilhar de todas as expectativas externas. Pra que ficar sustentando sonhos e impressões? Pelo contrário. Quanto mais sincera sou comigo mesma, mais transparece para o mundo quem eu sou e, quer saber? É bem melhor impressionar uns poucos com a verdade do que impressionar tantos outros com as mentiras que a gente constroe sobre nós mesmos. Então aqui vai, 10 coisas que ninguém imaginava sobre mim:
1- Eu bebo. E gosto.
2- Eu morro de vontade de fumar.
3- Eu tenho estrias e celulite.
4- Minha tatuagem significa muito mais pra mim do que pra você. E eu gosto que seja assim.
5- Eu me apaixonei por um croata no Chile, e um dia ainda vou atrás dele.
6- Eu sou preguiçosa, e fraca diante da minha preguiça.
7- Eu mato aula pra ficar dormindo e ouvindo música no sol.
8- Eu não acho errado fumar maconha. Não fumo, mas um dia, quem sabe.
9- Eu não quero ser advogada.
10- Eu não tenho a menor idéia do que eu quero pra minha vida, juro!
Então, isso é uma parte. O resto vai aparecendo aos poucos.
Honestly?
Eu sinto falta dos tempos que as provas eram semanais e o final de novembro era férias.
Eu sinto falta dos tempos em que podia assistir Gilmore Girls e ER a tarde.
Eu sinto falta de quando meu coração vinha à boca quando ouvia o barulho do msn me chamando.
Eu sinto falta também de quando me acustumei com aquele barulho.
Eu sinto falta de quando o vaso era branco.
Eu sinto falta de quando andar de ônibus ainda era dificil e dava medo.
Eu sinto falta de quando pensar no futuro era só imaginar o meu futuro brilhante, e não todo o tempo entre ele e o presente.
Não é que eu queira voltar no tempo.
É que naquela época, as coisas eram mais fáceis.
E quando as coisas apertam, é pra lá que eu volto.
Eu sinto falta dos tempos em que podia assistir Gilmore Girls e ER a tarde.
Eu sinto falta de quando meu coração vinha à boca quando ouvia o barulho do msn me chamando.
Eu sinto falta também de quando me acustumei com aquele barulho.
Eu sinto falta de quando o vaso era branco.
Eu sinto falta de quando andar de ônibus ainda era dificil e dava medo.
Eu sinto falta de quando pensar no futuro era só imaginar o meu futuro brilhante, e não todo o tempo entre ele e o presente.
Não é que eu queira voltar no tempo.
É que naquela época, as coisas eram mais fáceis.
E quando as coisas apertam, é pra lá que eu volto.
sábado, 19 de novembro de 2011
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Engraçado
como é só colocar um global no meio que uma causa que já gritava urgência há algum tempo ganha repercussão. É o caso da usina de Belo Monte, esse projeto falho, caro e absurdo que já saiu do papel no Brasil. A usina hidrelétrica traz uma série de problemas e outras tantas desvantagens pra região amazônica, pros índios, pro meio ambiente, e ainda não traz tantos benefícios assim.
Isso que todo mundo agora tá sabendo, porque a Juliana Paes, o Pedro da novela, o Bruno Mazzeo e mais umas figurinhas aí disseram. Sabe como é, né? Artista que tem voz por aqui.
O que me irrita não o fato de terem criado um movimento, e de que os artistas que tão divulgando esse movimento. A idéia é nobre e válida. O que me irrita profundamente é o fato de que só agora, com essa apelação que a tal questão tá ganhando a importancia que merece. Isso é, tá ganhando, porque é bem capaz de que depois de amanhã ou na semana que vem todo mundo esqueça o tal vídeo, e passe a compartilhar alguma atriz dando pala na TV, ou qualquer outro vídeo engraçado.
Num país onde a população letrada é majoritariamente formada por analfabetos intelectuais, só assim mesmo pra chamar atenção de algo tão grave. Pelo menos, agora a gente já sabe a receita.
Isso que todo mundo agora tá sabendo, porque a Juliana Paes, o Pedro da novela, o Bruno Mazzeo e mais umas figurinhas aí disseram. Sabe como é, né? Artista que tem voz por aqui.
O que me irrita não o fato de terem criado um movimento, e de que os artistas que tão divulgando esse movimento. A idéia é nobre e válida. O que me irrita profundamente é o fato de que só agora, com essa apelação que a tal questão tá ganhando a importancia que merece. Isso é, tá ganhando, porque é bem capaz de que depois de amanhã ou na semana que vem todo mundo esqueça o tal vídeo, e passe a compartilhar alguma atriz dando pala na TV, ou qualquer outro vídeo engraçado.
Num país onde a população letrada é majoritariamente formada por analfabetos intelectuais, só assim mesmo pra chamar atenção de algo tão grave. Pelo menos, agora a gente já sabe a receita.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Eu fui
Descobri que todas as minhas roupas cabem em três malas pequenas e meus sapatos na sacola gigante da Disney.
Fui ontem pro meu quarto novo com parede azul turquesa. Não segurei as lágrimas na hora de me despedir. Já as tinha segurado o dia inteiro, e o dia anterior também. Foi dificil.
Deixei meu pequeno que já é maior que eu, aquele bobinho que me fez chorar de saudade antecipada e alegria, por a estar causando também. Levei minhas roupas, meus livros, minhas miudezas e minha caneca pra não passar apertado. No mais, a casa de cá agora falta só organizar, colocar um vidro na mesa e encher de música e alegria.
Foi dificil.
Mas foi necessário.
Fui ontem pro meu quarto novo com parede azul turquesa. Não segurei as lágrimas na hora de me despedir. Já as tinha segurado o dia inteiro, e o dia anterior também. Foi dificil.
Deixei meu pequeno que já é maior que eu, aquele bobinho que me fez chorar de saudade antecipada e alegria, por a estar causando também. Levei minhas roupas, meus livros, minhas miudezas e minha caneca pra não passar apertado. No mais, a casa de cá agora falta só organizar, colocar um vidro na mesa e encher de música e alegria.
Foi dificil.
Mas foi necessário.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Pra pensar
Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto
by Nina Crintzs
Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.
Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.
Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.
O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.
O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.
A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.
O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.
O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.
Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.
Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.
Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.
by Nina Crintzs
Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.
Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.
Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.
O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.
O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.
A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.
O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.
O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.
Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.
Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.
Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.
Antes que me chamem de hipócrita, vamos esclarecer: eu não gosto do Lula como político, com ou sem câncer. Agora, como ser humano, ele merece o mesmo respeito que você meu amigo, você meu parente, você desconhecido e que o mendigo que mora na esquina de casa. Só isso.
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