quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A minha versão

Problema é uma coisa que vai e volta, sempre. São poucos os problemas que agente consegue resolver cem por cento. Esse problema da minha vida não é novo, e está longe de ser resolvido. Começou bem antes de mim, quando eu ainda era só um projeto, ou um sonho. Tenho pra mim que foi pura imaturidade de dois jovens, ou talvez vontade de fazer diferente dos próprios pais. Se bem que eu acho que a história começou um pouco antes, com os pais deles... Quando eu tinha cerca de 10 anos, havia acabado de descobrir o significado da expressão high society, eu defini minha avó materna como uma high society frustrada. Uma menininha podia enxergar aquela frustração, que uma senhora não conseguia adimitir. E era aquilo mesmo. Minha avó se casou com o meu avô, que era rico e filho de político - tinha o que na época chamavam de "berço"- na esperança de conseguir o seu lugar ao sol. Acabou se deparando com uma pessoa que tinha horror a toda aquela pobreza de espírito que as pessoas exibicionistas possuem, e que tirava mais proveito de uma boa conversa que uma dança em um baile. Ela queria dançar, ele prefiria ficar na dele. Os dois criaram uma familia para cumprir com sua obrigação social. Mas o casamento ainda que concreto no papel e nas fotografias, já acabou faz tempo.
Minha outra avó era de familia tradicional, que enchia a boca para falar que as filhas estudavam no Colégio Sion. Casou com um engenheiro e os dois criaram uma família bonita, seis filhos. Minha avó abdicou de sua vida para se dedicar ao casamento, à familia, aos filhos. Hoje, ela tem que abdicar de tudo para cuidar do marido doente, que já não é o mesmo marido atencioso e lúcido de antes.
E foram dois jovens, cada um filho de um dos casais acima que se juntaram. Ela queria sair de casa, e ele estava apaixonado. Um filho geraram, sem pensar muito nas consequências e responsabilidades que viriam junto. Ela queria agredir a mãe com aquela gravidez, e conseguiu. Casaram, criaram o primeiro filho e vieram dois outros depois. Os anos foram passando e eles foram crescendo, cada um em sua direção, e acabaram enxergando que não mais conseguiam se encontrar. Foram três dolorosas separações, cada uma com suas circunstâncias, cada uma com seus erros e aprendizados. Os filhos, nós, fomos juntos navegando por cada uma delas, sofrendo em cada uma delas, e aprendendo também com cada uma delas. A última, ainda não acabou. E parece que não está nem perto de acabar. Está na hora de mais um momento de sofrimento, de erros e, posteriormente, aprendizados. É a pior parte, com certeza, mas vale a pena. Eu não seria metade do que sou hoje se não tivesse passado por tudo aquilo. Mas chega uma hora que agente se cansa de sofrer, e prefere ficar assistindo tudo de longe, recebendo apenas os respingos de sofrimento, e sofrendo em ver duas pessoas que amamos em um duelo. Alguns podem enxergar tal atitude como covardia. Eu prefiro falar em preservação.

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