quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Saudade Crônica.

Não sei o que me deu, mas comecei a sentir à tarde uma saudade imensa de absolutamente tudo o que já se passou na minha vida. Saudade do tempo de menina, de brincar com as vizinhas, de ser mãe do meu irmão. Saudade da época mais sofrida da minha vida, de morar na casa do avô, do sorvete de creme com calda de chocolate que acompanhava os episódios de ER. Saudade daquela cozinha grande com o chão gelado, saudade do medo gostoso de descer as escadas sozinha a noite. Saudade de acordar sábado de manhã com os passarinhos cantando, e o barulho dos lavadores de carro. Saudade do tempo que o futuro era uma incógnita e por isso eu podia sonhar alto. Saudade do tempo que a familia juntou todinha de novo, e cada noite na nossa casa era uma noite a comemorar. Saudade de quando meu quarto novo era motivo pra manter a organização, do tempo que eu tinha tempo pra lavar as louças depois do almoço, e fazia isso com o maior prazer, quase como se fosse uma terapia diária: eu, a água e a louça. Saudade do tempo que a mudança superava qualquer cansaço físico ou psicológico, e de quando de repente as ruas passaram a ter nomes, e eu conseguia andar por aí e descobrir esses nomes. Saudade do tempo dos amigos que me divertiam, e saudade dos tempos das amigas que eram amigas. Saudade de poder sair depois da aula, e almoçar no shopping num exercício de responsabilidade e maturidade semanal. Saudade de ter um milhão de coisas pra fazer, e ainda assim chegar em casa depois da aula morta e me jogar ao prazer mundano da internet. Saudade das balas Chitas de todos os dias, dos bombons que eu não podia comer porquê estava de promessa. Saudade dos tempos em que andar de ônibus ainda era uma aventura, e não uma rotina. Saudade do final de ano na casa da avó, quando o dia inteiro tinha gente por lá, e no último dia antes do natal, a amiga grande e vermelha levava uma torta de chocolate de presente pra gente. Não sei ao certo se a palavra certa seria saudade, porque pra mim foi algo próximo de sensibilidade, já que eu pudia reviver cada sensação dos diversos momentos que me vieram à tona. Foi uma saudade boa, sim. Essas saudades me bateram de repente, e levaram o resto do meu dia pras nuvens. Fiquei por lá, saboreando as delicias da nostalgia, e a tristeza de não poder reviver o passado. Não sei o que me deu. Acho que foi a chuva que eu previ, e não aconteceu.

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