retornou e colocou Geniris na linha. nas primeiras palavras eu tomei um susto. Geniris tinha a voz rouca, muito rouca, parecia um homem rouco falando. até pensei que podia ter me confundido na hora e ligado pro lugar errado, mas era ela mesma: Geniris e sua voz semi-etérea.
minha primeira sessão foi num fim de tarde, fiquei duas horas lá. saí já era noite. alguém ligava pra ela, perguntando se era pra buscá-la, quando nos demos pela hora.
Geniris era velhinha, andava com dificuldade. mas tinha a cabeça muito boa. lembro dela falar de sexo comigo, quase me deixando constrangida pela facilidade em falar daquilo. eu, virgem que era, tinha vergonha de falar daquele jeito com uma amiga próxima, ainda mais com uma senhora da idade da minha avó. mas ela falava, falava da vida, falava de sentimentos, falava do mundo, de política, de cinema.
já falamos tanto de filmes. eu sempre quis encontrar com ela no Belas, depois que parei de fazer terapia, pra contar como andava minha vida. esse aliás, foi um sentimento que se fez muito presente nos últimos três anos. sempre imaginei o que ela iria falar se soubesse onde eu estou agora, como eu estou. se soubesse que depois que eu saí do consultório dela em abril de 2012, fiz muitos amigos na faculdade, entrei pra "política", aprendi a falar e a me colocar em público, me diverti muito em diversas situações, arrumei um grande amor e voltei a morar com minha mãe. sempre quis contar tudo isso pra ela, sempre quis ouvir o que ela ia dizer sobre quem eu sou hoje.
há cerca de um mês, eu quase liguei pro consultório dela. voltei pra terapia há algum tempo, e ela esteve entre as minhas possibilidades. sabia que seria alguém que ia aceitar o que eu tenho pra pagar, sabia que era alguém que ia entender esse meu passado e essa minha bagagem que eu trago comigo. quase voltei.
hoje, não sei se por bem ou por mal, não voltei. por bem, porque ela se foi semana passada, então eu acabaria tendo que recomeçar cedo ou tarde. por mal, porque teria dado tempo de contar tudo pra ela, e ouvir o que ela teria pra falar.
mas não tem como mais.
ontem, quando fiquei sabendo que ela tinha falecido, fiquei receosa de dormir. passei a noite toda acordando, mesmo estando ao lado do meu bonito, em quem eu podia me reconfortar. mas tive medo de dormir e sonhar com ela. quando fazia terapia ainda, e até pouco tempo depois de parar, vivia sonhando com Geniris. sempre os sonhos tinham a mesma sensação horrível e sufocante de um vento enorme soprando só abaixo da minha nuca, como se algo ou alguém estivesse entrando voando por ali.
sempre achei Geniris meio bruxa.
esotérica, aquela voz etérea, o consultório escuro, esfumaçado e com cheiro de cigarro black.
as vezes tinha a sensação de que estava saindo do ar, quando ia lá. as vezes, quando ela começava a falar, eu começava a ver as coisas mexendo de um jeito estranho.
Geniris era meio bruxa.
agora ela se foi, tá conhecendo o que vem depois. se é algo fantástico, tenho certeza de que está com os olhos semi-arregalados, achando tudo incrível. se algo sem graça, tenho certeza de que está se conformando com o ceticismo.
eu sei que deixou meu coração apertado.
deixou um pouquinho de medo também.
Geniris se foi.
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