na última noite de boêmia ele falou uma coisa que deixou a moça intrigada. falou que o outro é sempre uma fuga de nós mesmos. a moça parou por alguns longos instantes e refletiu sobre aquilo tudo. pensou que talvez seria verdade. talvez não, com certeza. ele então lhe pediu que não deixasse aquilo acontecer de novo. que não deixasse que ele a contaminasse com toda aquela filosofia obscura que lhe rondava. que aquilo era um buraco sem fim, areia movediça. e terminou dizendo que o outro não era apenas uma fuga, era também um encontro consigo mesmo.
e ela pensou mais a respeito. refletiu observando aqueles olhos obscuros que a fitavam, quase um buraco negro. ela tinha medo de olhar demais. não no sentido piegas de cair pra dentro do buraco negro e nunca mais voltar. tinha medo de cair no buraco negro e não enxergar o que acontecia ao seu redor. tinha medo de se afogar ali dentro e não entender o que se passaria a sua volta. voltar ela voltaria. mas os instantes que poderia vir a passar lá dentro eram um grande enigma.
voltou-se para o caderninho recém adquirido e anotou aquelas frases pra se fazer pensar mais a respeito depois.
e pensa agora ela sozinha no quarto. o outro é sempre uma fuga de nós mesmos, e um encontro com nós mesmos. e se lembrou do Sabino, que fazia do medo uma escada e da procura um encontro. talvez devêssemos todos fazer da fuga um encontro, na realidade.
e confusa pontuou o finalmente do texto, fechou o caderno e apagou as luzes. mergulhou no breu da madrugada e se perdeu naquele buraco negro que ela já conhecia há tempos.
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