quinta-feira, 14 de março de 2013

nem tão

ela nunca se achara muito bonita, muito vistosa. sempre havia sido a menina do nem tão: nem tão bonita para merecer atenção, nem tão feia para merecer pena.
iniciou as aventuras amorosas tarde, para a sua geração. passara muito tempo com os problemas que não eram dela, e que a fizeram deixar de lado a própria vida quando ainda era adolescente.
ela tentava relembrar quando havia se tornado alvo dos olhares e interesses que agora a confundiam, enquanto acariciava aquelas sobrancelhas grossas. na semana anterior estivera em outra cama, em outra companhia. já nessa, era a companhia de tempos, que já estava em sua vida há mais de um mês - recordista em sua não tão longa nem tão movimentada vida amorosa. porém naquele momento, sua vida tornara-se movimentada até por demais, extravasando os limites inclusive do equilíbrio, que ela tanto prezara a vida inteira. chegava a ser cômico os momentos em que dois ou três deles, surgiam ao mesmo tempo, através de meios diferentes - ou as vezes iguais, como fora naquela madrugada em que as três curtidas do vídeo que postara foram notificadas quase que simultaneamente, vindas dos três respectivos.
acordaram na manhã seguinte com a luz do dia invadindo o quarto pela janela do banheiro, e o calor causado pela veneziana fechada os fazia transpirar. em meio às conversas preguiçosas do despertar ela notou que sua tese não era falsa: ele havia estado bêbado a noite inteira, assim como em todas as outras vezes em que haviam terminado na cama. ele tentou novas investidas, agora sóbrio, ao que ela cedeu por preguiça de contestar. consentiu o sexo matinal de forma distante, ainda que lhe trouxesse prazer.
enquanto ele tomava banho, ela lia as primeiras páginas do romance francês que há tempos uma professora substituta havia indicado, enquanto se perguntava quem havia ligado para ele na madrugada anterior, enquanto ele dormia um sono pesado. se perguntava se tudo o que ele havia dito na noite anterior, enquanto caminhavam na rua, enquanto bebiam no bar, se tudo aquilo era verdade. se realmente ele sentia algo diferente por ela. se realmente ele queria algo com ela. se perguntava se seria ela, realmente a única na vida dele. ainda que não pudesse ela mesma exigir isso como moeda de troca, já que havia estado em outras mãos na semana anterior. se perguntava o que queria de verdade, no fundo da alma. se eles seriam realmente fadados ao insucesso, e de conciliação impossível, diferenças insuperáveis. ou se haveria uma chance naquela história, se aquele poderia ser um relacionamento - o seu primeiro - possível.

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