terça-feira, 3 de novembro de 2009

Da mesma menina de anos atrás

Demorou pra chegar, dessa vez. Parecia que ia ser pra sempre a paz que rondava, e por isso mesmo que uma pulga cutucava, coçava e gritava na minha orelha. Eu, dando uma de ingênua e com a esperança de que afastar aquele pensamento era o mesmo que deixar o fato distante, não dei ouvidos à pulga. E ela estava certa. Mais uma vez, me senti hoje na frente daquela escrivaninha com o caderno de matemática aberto na parte de matrizes da mesma forma que há três anos atrás, quando atendi aquele telefonema, da mesma forma que há quatro anos atrás, sentada na cadeira da piscina tentando descobrir uma forma de passar o tempo mais rápido, ou da vez que eu ainda era menina e fingia a dor de cabeça pra justificar o atraso e os olhos inchados de tanto chorar. Foi desse mesmo jeito que eu me senti hoje, como uma menina que espera a vez dela no mundo, na vida. E enquanto isso, ela tem que sofrer as custas dos erros dos outros. Me peguei mais uma vez pensando nas possibilidades que de repente fugiram todas juntas da minha cabeça. Me peguei mais uma vez pensando nessa cabecinha que tem uma overdose de sonhos ao mesmo tempo que sofre uma abstinência de certezas. Me peguei mais uma vez pensando no futuro que eu não consigo enxergar porque tem uma incógnita gigante atrapalhando a minha visão. E me peguei nas piores companhias do mundo: a solidão e a infelicidade. Uma companheira da outra, me jogaram pra pior sequencia de pensamentos do mundo, e que não é nenhuma novidade para mim. É a mesma que eu tive na varanda, e no quarto do vovô, e na piscina que é dele também, e no meu quarto de menina, e nos tantos banhos que eu tomei por puro desespero, quando a única coisa que podia me confortar era o quentinho da água batendo nas minhas costas. Aí eu pensei: o que que eu tenho de feliz na minha vida? Uma família que desmorona pelo menos uma vez a cada dois ou três anos? Uma vida social que se resume a duas amigas? Uma carreira escolar que me esgota de fevereiro a novembro, e depois me faz ruir em angústia e melancolia? Uma vida amorosa satisfatória que não tem um caso que não seja pelo menos um pouquinho traumático? Uma beleza estonteante, que só comove as pessoas mais velhas? Um corpo maravilhoso que me dá auto-estima uma vez a cada seis meses, quando tudo o que eu já citei se encontra em uma fase positiva? A fé... essa sim, eu posso dizer que é satisfatória, transcedental, e um exemplo de total e completa entrega. Pra conquistá-la eu tive que passar por poucas e boas, tive que ir, e voltar, pra depois ir de novo e conseguir então estabelecer meu equilíbrio, e o equilíbrio da mesma. Mas agora eu pergunto, o que mais tá faltando pra aprender? Me conta? Meu Deus, desculpa essa revolta irada, mas é que não dá mais, sabe? Até quando eu vou ter que aprender através da dor, do medo, da solidão, da melancolia? Não tem um outro jeito de você mandar isso pra mim não? Eu sei que se você tá mandando, é porque eu ainda aguento, mas por favor, tenha um pouquinho de piedade comigo. Me dá uma luz, me ajuda a continuar acreditando que tudo isso tem uma razão, um porquê. Me ajuda a continuar acreditando que um dia eu vou ver que tudo isso valeu a pena, e vou ter uma recompensa que vai justificar cada lágrima chorada e não chorada, cada dor de cabeça como essa que eu tô sentindo agora, que começa lá no fundinho da cabeça e acaba nos olhos. Cada frio que eu senti quando o que deveria sentir era o calor, cada noite perdida com insônia, cada olhos ardendo na manhã seguinte. Me ajuda a enxergar o lado bom disso tudo. Me ajuda, Meu Deus, me ajuda! E apesar de tudo, hoje a lua tá linda.

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