quarta-feira, 8 de junho de 2011

Para trás?

Carta a um(a) psicólogo(a) que queira por algum motivo tentar me entender e me ajudar a entender minha cabeça, e acalmar meu coraçãozinho aflito:

Caro psicólogo,
Dizem que pra entender uma coisa a gente tem que começar pelo... começo, né? Pois bem, ao começo: eu quis ser professora na minha infância, jornalista e estilista na minha pré-adolescência (eu queria ser os dois - de preferência uma jornalista de moda e estilista nas horas vagas), e até os 13 anos eu tinha certo na minha cabeça que seria jornalista. Devido a problemas familiares, fui parar na casa dos meus avós, em um período difícil e cheio de problemas. Eu assistia aquele seriado médico, E.R., e foi dele que surgiu a minha vontade de ser médica. Mais por uma necessidade de ter um propósito de vida naquele momento do que por realmente entender a profissão e tudo que ela exige. Na época a imaturidade era tanta que na minha cabeça eu ia estudar medicina em Harvard ou Yale (influência de outro seriado, Gilmore Girls), ia morar em Chicago e trabalhar no County General. Eu realmente acreditava que ia estudar nos EUA, até o dia que eu resolvi fazer uma pesquisa, e descobri que eram necessários 40 mil dólares anuais para estudar lá. Com umas continhas simples e rápidas eu percebi que aquilo estava muito além das minhas possibilidades. A solução imediata foi começar a economizar o dinheiro do lanche, com o intuito de juntar todo o dinheiro até eu entrar na faculdade. Idiotices a parte, fui amadurecendo e percebendo que era mais provável que eu não conseguisse sair do país mesmo, e resolvi me contentar com uma universidade federal mesmo. Foi aí que eu resolvi mudar de escola, e encarar o desafio de estudar no colégio que mais aprovava alunos para medicina da UFMG. Eram mais de 60% das vagas, e eu achava aquilo incrível. Na época minha família já se encontrava bem estruturada novamente, e fui.
Entrei para o Bernoulli e logo me deparei com a verdade sobre o vestibular de medicina: daqueles 240 alunos, apenas 8, no máximo 10 tinham embarcado na universidade direto do ensino médio. Foi um baque para a minha pura pessoinha, que acreditava que passar no vestibular de medicina era simplesmente uma questão de estudar no lugar certo. Logo no meio do ano eu já tinha desistido de fazer medicina, e rondava na minha cabeça a ideia de fazer relações internacionais. A utopia agora era outra: eu seria uma diplomata, trabalhando na ONU e lutando pelos direitos das pessoas pobres da África. Enfim, eu não contava sobre a minha desistência para ninguém da família, pois tinha medo que minha mãe me fizesse mudar de escola.
No segundo ano, passei por uma depressão fud***, e uma das coisas que mais me incomodava era esse não dizer. Eu já tinha chutado o balde, não aguentava mais aquela escola e resolvi falar pra quem quisesse ouvir que eu não queria mais fazer medicina. O fato é: isso não me fez sair da escola (ainda bem), nem me fez melhorar.
No terceiro ano do ensino médio tudo melhorou. Fiquei feliz, equilibrada e tranquila, mas até o meio do ano para mim ainda existia a grande dúvida: o que eu vou fazer? Tive a fase da moda (eu tenho mania de confundir hobby com profissão), tive a fase da economia e um lapso de direito. Mas acabei me decidindo realmente pela medicina. Fiz o vestibular, mas não tinha a menor esperança de passar para a segunda fase. Acontece que eu acabei passando, nas duas universidades que eu tinha feito inscrição, mas já era tarde e eu não tinha estudado tanto quanto deveria. Não passei da segunda fase, mas ter passado da primeira me deu um sopro de esperança, um gostinho bom.
Nesse ano então, comecei a encarar o meu primeiro ano de cursinho. Tudo ia bem (apesar de ser um saco, as pessoas serem muito chatas, etc) até o dia que a UFMG resolveu tirar a nota da redação da primeira etapa. Foi um balde de água gelada. Eu só passei para a segunda etapa por causa da nota da minha redação, que é o meu forte. Passar, antes, era uma possibilidade palpável. Agora, era bem remota, quase impossível. Foi uma semana de cão, minha cabeça a mil, e eu só pensava em desistir. Na última segunda feira, depois dessa semana de cão, pensei muito e cheguei a uma conclusão: como diria a minha tia Patinha, medicina é uma profissão que exige tudo de você e não te dá nada em troca. É uma vidinha de merda, porrada atrás de porrada, esforço, e mais esforço. É uma prova de resistência. Você tem que passar no vestibular, o que é uma luta suada e fudida. Depois vem o curso, quando você estuda, estuda, estuda, por 6 anos e não pode trabalhar - é um atestado de pobreza. Depois, acabou!! O curso. Agora vem a residência: mais um vestibular, mais 2 anos de estudo árduo, muita ralação e pouco dinheiro. Oito anos depois, você ainda tem mais uma coisa a fazer: especialização. Aí é hora de começar a pensar em acabar. Você vai ficar uns 2, 3 anos, e só depois, agora sim, você pode começar a pensar em ganhar dinheiro. Ufa. Isso é, você pode pensar. Maaas, atualmente ser médico não é garantia de ficar rico depois que formar. Ainda mais na minha situação, quando você não tem pais, mãe, avós que são médicos. Você corre o risco de ter que se sujeitar a trabalhar em um posto de saúde numa periferia ou interior, ganhar porra nenhuma e trabalhar pra caralho, e ainda não ter condição nenhuma de tratar seus pacientes com dignidade por que o Estado não te garante nem uma luva cirúrgica direito.
Tem outra opção, um pouco menos pior: você pode se sujeitar a ser explorado por um plano de saúde - ou vários ao mesmo tempo - que vai te pagar pouco, vai fazer você atender 4 pacientes por hora (pra ganhar mais), e você nunca vai conseguir saber nem o nome dos seus pacientes direito.
Vamos agora ao meu raciocínio: se eu fizer direito, eu vou poder:
1- trabalhar durante o curso, ganhando dinheiro de verdade;
2- começar minha vida antes, bem antes;
3- ter várias áreas de atuação, sem depender de planos de saúde e do governo, e ainda tem sempre a opção do concurso público (apesar de eu ser veemente contra esse bando de atoa que fica mamando nos cofres do Estado).
Aí, vem algum hipócrita e me pergunta: mas você então vai fazer direito ou medicina por dinheiro. Eu te respondo: você trabalha para que? Se eu não precisasse ganhar dinheiro, eu ia ler, estudar, cozinhar, viajar pelo mundo, fazer trabalho voluntário!!! Eu não ia ficar ralando meu traseiro para conseguir dinheiro não. Se Webber acha que o trabalho enobrece o homem, eu digo: o que enobrece o homem é a vida que ele constrói. Politico corrupto nenhum é nobre porque trabalha. Advogado corrupto nenhum é nobre porque trabalha. A dignidade do homem não está ligada ao trabalho, e a profissão não deveria ser a coisa mais importante da vida de ninguém. E, definitivamente, não é a coisa mais importante da minha vida.
Agora vamos aos meus objetivos de vida: o que eu quero? Eu quero uma coisa: ter possibilidade e oportunidade de fazer as coisas que eu gosto. Por possibilidade, entenda-se dinheiro, e por oportunidade entenda-se tempo. Pois é. Medicina pode talvez me proporcionar possibilidades, e muito provavelmente não me proporcionará muitas oportunidades. Direito por outro lado pode me proporcionar os dois.
Mas o que ainda me prende à medicina? E o que ainda me deixa insegura em relação ao direito?
O que me prende à medicina é a imagem que as vezes vem na minha cabeça: eu, vestida em um avental azul com jaleco branco e um estetoscópio no pescoço, olhando para uma radiografia, ou então numa sala de cirurgia com um bisturi na mão.
O que ainda me deixa insegura em relação ao direito, é que eu nunca - para falar verdade - tive interesse em advogar. Não sei falar em público, e fico vermelha quando sou obrigada. Não sei se o curso deve ser legal, mais ou menos eu acho.
Ao mesmo tempo, o que me traz insegurança é também o que me desafia: fazer direito seria um grande desafio pessoal para mim, ia me tirar desse mundinho introspectivo. Eu ia ter que colocar a cara no mundo, botar minhas perninhas para andar. Medicina ia me manter na zona de conforto: ficar estudando apenas pelos próximos 8 anos.


Então, caro psicólogo, o que você me diz sobre este dilema?

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