alzheimer é a pior doença do mundo.
não existe câncer, não existe paralisia, não existe doença cardíaca ou respiratória que se iguale. talvez a distrofia muscular seja capaz de se igualar, mas o mal de alzheimer atinge muito mais pessoas do que a ELA, então ela fica com o título: pior doença do mundo.
meu avô tem alzheimer há mais de 10 anos. ele já passou por todos os estágios, desde os esquecimentos corriqueiros, a perda de pudor, as situações higiênicas que testam a capacidade de lidar com constrangimentos de qualquer pessoa próxima, até a agressividade. hoje, meu avô é um semi-vegetal. digo semi, porque ainda é possível, vez ou outra, escutar ele gemer alguma coisa que faça sentido, mesmo que um sentido absolutamente superficial. como foi o dia que ele ouviu a voz do meu pai e chamou pelo nome dele, mesmo sem ter nada mais a dizer. é o tipo de coisa que coloca lágrima nos olhos de um filho, por mais simples que enunciar um nome seja. é o tipo de coisa que faz pensar que, ali, naquele fiapo de gente que restou, ainda existe alguma coisa daquele homem alegre e batalhador que foi um dia.
tem vezes que eu não consigo lembrar de como meu avô era. é como se fosse uma pessoa que morreu há muito tempo, e que eu nem lembro mais. mas, com um pouquinho de esforço, eu consigo lembrar de quando ele buscava a gente na escola, no golzinho vermelho que deixava ele ainda menor do que era na ápoca. passava sempre na padaria da praça Nova York, comprava fanta uva e chips pra mim e pro meu irmão. dá pra lembrar da alegria dele em montar o presépio no natal, com o laguinho de mentira, a areia branca, a montanha que ele fez de papel maché, as graminhas e todos os personagens presentes. até patinho na lagoa tinha, e só hoje eu consigo perceber o quão absurdo são patinhos na lagoa de Belém. mas aquilo era a maior felicidade dele. buscava a gente em casa pra montar presépio e árvore de natal, e sempre tinha a divisão: meninas na árvore com minha avó, e meninos no presépio com meu avô. no natal ele era só alegria, entregava os presentes com gorrinho de papai noel, adorava comer nozes depois de quebrá-las no quebra-nozes. meu avô bebia uma cervejinha de vez em quando, adorava ouvir chorinho e era uma pessoa feliz, muito feliz. amava minha avó de um jeito que eu não tenho exemplos na família, tudo dele era a Maria. aquela música que hoje, pra mim, é dos novos baianos, era antes do meu avô, que ele cantava e que significa muito hoje: "sei que vou morrer, não sei o dia... levarei saudades da Maria".
aí veio o alzheimer. no início era divertido, meu avô falava besteira, tirou as amarras do pudor que (creio eu) o casamento lhe trouxe. um dia, quando meu irmão completou 18 anos, foi capaz de falar com ele que quando ele tinha aquela idade, as mulheres faziam fila na porta dele pra transar. não tinha papas na língua, falava coisas desconexas, inventava histórias, mas era tudo, até então, muito divertido.
veio depois o início da parte mais degradante: os "acidentes". vira e mexe meu pai tinha que correr pra algum lugar pra tirar ele do banheiro, porque tinha feito alguma coisa na calça. meu pai, com toda a pedagogia dele, virou pai do pai, e inventou uma "cueca especial de viagem" que ele supostamente usaria, para o pai usar e não ter mais esse tipo de problema. meu avô pedia pra minha avó, pra ela chamar o Mauricio porque ele precisava de uma daquelas cuecas especiais pra ir na casa das irmãs ou dos filhos.
até então, meu pai conseguia levar tudo numa boa, não haviam grandes problemas que ele não pudesse resolver. mas o alzheimer, é a pior doença do mundo. e aí veio a agressividade. eu atribuo essa fase à percepção que a pessoa começa a ter do que vai ocorrendo com ela. ele tinha crises de agressividade recorrentemente, já chegou a bater na minha avó e no meu pai, e sempre depois dessas crises, haviam momentos de choro e de questionamentos sobre o que estava acontecendo com ele. pareciam picos de lucidez, que faziam ele sofrer ainda mais.
daí pra frente, vieram as enfermeiras, as fraldas, as sondas, a fisioterapia. meu avô parou de comer, parou de andar, parou de falar.
em uma das situações higiênicas constrangedoras que ele passou na casa das irmãs, meu pai foi chamado para socorrer a situação. foi o único que ele deixou entrar no banheiro, foi o único que conseguiu levar ele pra casa. quando meu pai acabou de limpar as coisas, viu o pai chorar pela primeira vez na vida. chorar igual criança, pedindo pra alguem acudi-lo, perguntando o que estava acontecendo.
o alzheimer é isso: é a perda de dignidade progressiva de uma pessoa. é a perda de si mesmo no seu próprio corpo, da sua história, do seu corpo, da sua vida no sentido memorial e no sentido fisiológico. por isso é a pior doença do mundo: você assiste à sua própria morte. você assiste à sua própria degeneração, física e mental.
hoje eu assisti o filme Still Alice, e me fez pensar muito em tudo o que essa doença causou a uma pessoa tão especial na minha vida. me fez pensar em tudo o que ela tá começando a causar em outra pessoa, também tão especial. e me fez pensar ainda, em tudo o que ela pode vir a causar, numa das pessoas mais especiais. quando a filha pergunta à mãe como é para ela a doença, e ela responde àquilo que ninguém ousa perguntar, a filha diz o que todo mundo quer dizer, mesmo sem perguntar: parece horrível.
por isso, por tudo isso, alzheimer é a pior doença do mundo.
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